Artigo - PERDEMOS NOSSA VACA! E AGORA?

A crise é um bom momento para descobrir se sua empresa construiu uma cultura forte, baseada em superação: 2015 promete colocar isso à prova

Você talvez já tenha ouvido falar daquela parábola da família pobre que morava em um sítio e tinha como fonte de seu sustento uma vaquinha, que fornecia muitos litros de leite. A história conta que um mestre ordena a seu discípulo que empurre a vaquinha em um precipício. Anos depois, intrigado, o discípulo volta à região e descobre que, diante da perda, a família se viu obrigada a buscar novas alternativas para sobreviver. Moralizante, o conto mostra que o novo desafio levou a um patamar de prosperidade que, com a vaquinha, provavelmente nunca teria sido alcançado.

O caminho inverso, o da estagnação, se configura como outra possível forma de reagir a momentos onde a crise se instala. Ficar à espera de salvação, sem nada movimentar para mudar a realidade, é outra via tomada em cenários aterrorizantes como aqueles. E esses cenários acontecem muito.

Imagine um momento em que a economia está desfavorável, há crise de confiança no ar, o nível de desemprego real (real mesmo) tem subido, os recursos básicos passam a escassear, faltam políticas que viabilizem a geração de renda e riqueza para o país. Qualquer semelhança não é mera coincidência: o rebanho chamado Brasil tem ido todo para o precipício – e não somente a vaquinha.

E você pergunta: agora, o que fazer com todo este limão que azedou o nosso leite do dia a dia? Nessas horas, o que estimula a escolha por uma ou outra via (da superação ou da desesperança) são os valores e crenças de cada família, cada grupo, cada organização. A forma de pensar vigente desses núcleos é o que chamamos de cultura e dela derivam padrões de comportamentos: dos derrotistas aos aguerridos. No ambiente corporativo, acostumado à luta pela sobrevivência na selva competitiva, quando uma cultura é forte, ela une as pessoas frente aos leões habituais e a outras feras nunca antes enfrentadas.

Estamos todos colocando a força da nossa cultura, que se diz pautada em superação, à prova. É hora de observar se fomos capazes de construir times que se movimentem no sentido de dizer e praticar: “Vamos passar juntos por isto, sairemos mais fortes ainda!” ou ainda que se perguntem: “O que podemos fazer de diferente? O que é urgente e o que é importante nesse contexto?” Não há dúvidas de que um time com essa garra seria ideal.

Essa postura, porém, não é simples reflexo de uma crise – essa é apenas capaz de revelar a cultura, a forma essencial de pensar das pessoas daquele grupo, deixando ver se as posturas esperadas vêm à tona. Esses momentos são muito ricos para mostrar se o clima de busca incansável pela prosperidade, se um olhar otimista, se o espírito de time já foi criado – com base em consonância de valores, emoção e conexão entre as pessoas. A crise é apenas a oportunidade para checar isso. E oportunidade somada a preparo é o que muitos chamam de sorte. Eu chamo de planejamento.

E como se planejar para ter uma cultura pronta para encarar momentos de escassez e também de bonança? Eu tenho uma resposta que parece simples, mas envolve muito trabalho árduo e contínuo: olhando para as pessoas. Sua gente.

O que elas acreditam e praticam? O que você vê está alinhado com que sua empresa prega? O que você está fazendo para reduzir esse gap? Está trazendo as pessoas para perto de você, conhecendo de perto e engajando nos seus propósitos? Está escolhendo as pessoas certas?

Não adianta pensar nisso só na época das vacas magras ou arremessadas ao penhasco, o raciocínio deve estar na estratégia, o tempo todo. Cultura forte não é uma declaração pública de crenças que merece placa na parede, mas o cultivar de valores e de atitudes, no dia a dia, entendendo se a essência das suas pessoas está alinhada com os propósitos da sua empresa.

Passar por momentos de crise é um bom teste para checar isso. Se você é empresário no Brasil, em 2015 provavelmente será um ano bom para provas. Caso sua vaca vá para o precipício – tomara que não! –, entenda o drama como oportunidade não apenas para reinventar formas de sobreviver financeiramente. Mas como um estímulo a criar a maior fortaleza para superar os próximos precipícios: um time conectado por valores, formando uma cultura forte, baseada em superação. Com isso, ainda que vacas caiam, seu sustento não mais azedará.

Eduardo Bezerra é CEO da Exection, e conta com mais de 15 anos de experiência em consultoria em gestão empresarial.